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A salvação do pop acontece no primeiro álbum de Dua Lipa

August 7, 2017|by  Marcos Boscolo|no comments

“Demorou, mas chegou”. Podemos usar esse famoso dito popular para falar do álbum de estreia de Dua Lipa de muitas formas: primeiro, claro, por conta da série de adiamentos, que fizeram com que o disco demorasse a estar entre nós e, segundo, porque esperamos até junho para finalmente escutarmos um bom álbum pop, mas o momento chegou.

O disco de estreia da britânica tem, como objetivo, o mesmo que qualquer outro (bom) debut: apresentar a artista ao público, definindo quem ela é, qual é sua sonoridade e como são suas letras. Se a primeira impressão é a que fica, aqui Dua precisa mostrar pra gente que vale a pena depositar nossas esperanças de boa música pop em seu trabalho e ficar atento para seus próximos passos.

Leia nossa review faixa-à-faixa abaixo:

“Genesis”

“No começo, Deus criou o Céu e a Terra, mas eu acho que ele poderia ter começado por você.” É assim, com uma música de nome “Genesis”, o significado bíblico para “início de tudo”, que Dua Lipa escolhe abrir o seu álbum. Bem conveniente, não só por abrir o disco, mas também por ser a faixa responsável por apresentar seu tema central: o bom e velho relacionamento que não deu certo. “Genesis” dá início ao álbum de uma forma perfeita: dançante, honesta, refrescante e totalmente levada pela voz limpa e única de Lipa.

“Lost In Your Light (feat. Miguel)

Sabe aquele tipo de faixa lançada antes do CD sair que quando escutamos nos soa boa, mas quando a ouvimos pela primeira vez no contexto do disco, fica ainda melhor? Esse é o caso de “Lost In Your Light”. A parceria com Miguel se banha dos anos 80 pra continuar contando a história iniciada em “Genesis” e levantar o ânimo de um trabalho que só tem bangers. Não acreditamos que foi a melhor escolha para single de pré-lançamento do álbum, mas estamos certos de que a música é a ideal para te colocar de vez em seu ritmo.

“Hotter Than Hell”

Uma das melhores canções lançadas em 2015, “Hotter Than Hell” é uma velha conhecida nossa e entra na cota tropical-house inspirada em “Sorry”, do Justin Bieber, que todos os artistas andaram cumprindo. Dois anos mais tarde, a música, apesar de trazer a cantora na sua forma mais confiante, sexy e ousada, já soa datada e desconexa para o restante do material, que na maior parte do tempo acerta em resgatar sonoridades passadas para o cenário atual, sem a necessidade de reaproveitar o que tem rendido para as rádios.

“Be The One”

O maior hit da cantora até agora é uma das faixas que melhor reflete o disco como um todo. Produzida pelo Digital Farm Animals, a música desacelera o ritmo do CD e aposta em uma chuva de sintetizadores em meio a um refrão pegajoso, daqueles que Lipa também nos prova saber escrever muito bem. Diferente de “Hotter Than Hell”, “Be The One” continua tão refrescante quanto era em 2015, quando foi lançada.

“IDGAF”

Essa é uma das faixas que mais se afasta da proposta eletrônica do CD, e é bem mais pop em sua essência do que as anteriores. Produzida por MNEK e a única do material que não foi escrita pela inglesa, a canção tem todo um estilo “animação de torcida”, com a ajuda de alguns leves riffs de guitarra, teclado e muitas palminhas. Nos soa como algo que o Little Mix faria em seu “Get Weird”. É a Dua Lipa mandando o boy ir pastar, mas com muito bom humor. Não é a música mais original do mundo, mas não se leva tão a sério e, por isso, diverte.

“Blow Your Mind”

Foi quando Dua Lipa lançou essa faixa, que entendemos o seu potencial. Apesar do longo tempo em que nos foi apresentada, “Blow” garante um dos ápices do álbum e um momento em que a artista nos mostra o que, por sua breve carreira, às vezes não fica tão clara: sua personalidade.

Debochada, poderosa, dançante e, como pede o refrão, explosiva. O pop em sua perfeição.

“Garden”

Se a britânica começou seu disco falando de “Genesis”, em “Garden” ela fala do “Jardim do Éden”. Depois de músicas sobre o início de um relacionamento, o fogo, as provocações, as idas e vindas, entramos aqui na parte em que a cantora entende que o casal não funciona mais e se pergunta com a voz embargada: “Estamos deixando o Jardim do Éden?” ou, em boa tradução de metáforas, “estamos mesmo saindo do paraíso do início de nosso relacionamento e entrando na parte difícil disso tudo?”. Apesar de emotiva e vulnerável, e de não perder a sonoridade eletrônica nem em mid-tempos, “Garden” passa despercebida em meio a tantas músicas contagiantes e mais interessantes e serve apenas para contextualizar o álbum.

“No Goodbyes”

Ela entendeu que o relacionamento não vai pra frente, agora é hora de deixá-lo no passado. “No Goodbyes” e o respiro final dessa história: quando você ainda tenta estar com a pessoa sem se apegar, apenas por mais uma noite. “Por que não nos seguramos, nos usamos, sussurramos mentidas bonitas?”, canta Dua, em uma faixa que nos lembra bastante “Drunk On Love”, da Rihanna. Apoiada por pianos e sintetizadores, o mid-tempo é grudento como a música pop pede para ser e seria uma ótima escolha para single se a cantora quisesse apostar em um lado um pouco mais orgânico do álbum.

“Thinking ‘Bout You”

Mais de uma vez, Dua Lipa falou sobre se inspirar bastante no R&B dos anos 90 e ‘oo, com o exemplo das Destiny’s Child.  Mas essa sonoridade só chega ao “Dua Lipa” quando encontramos “Thinking ‘Bout You”. Toda acústica, a faixa nos ganha por seu ritmo relaxado, que cresce quando somado aos vocais roucos da cantora – um dos melhores momentos da sua voz no disco, inclusive.

“New Rules”

Se você pensou que os saxofones do pop ficariam em 2014, quando ouvimos hits como “Talk Dirty”, do Jason Derulo, e “Worth It”, do Fifth Harmony, pense de novo. “New Rules” acerta por sua narrativa divertida, na qual a cantora narra as suas regras para superar um relacionamento fadado ao erro. Os sintetizadores estão mais presentes do que nunca, enquanto seus vocais seguem nos guiando, como uma amiga que nos aconselha em um longo telefonema.

“Begging”

Os primeiros segundos ao piano nos remete a parceria do Drake com Rihanna, “Take Care”, mas tudo muda conforme a música cresce e explode em seu refrão, sob palmas e até um coral. Os sintetizadores reúnem muito bem elementos que nos rodeiam ao longo de todo o disco e, chegando ao fim do trabalho, já nos surge a sensação de que seu dever foi cumprido.

Homesick

A única balada do álbum é também a última faixa de sua versão standard. Dua Lipa não se permite descansar e mostrar o máximo de sua vulnerabilidade até que você tenha dançado muito, mas quando o faz, com a colaboração de Chris Martin, nos entrega mais uma das melhores faixas do registro. Da forma como posiciona seus vocais a letra, “Homesick” traz Lipa em sua melhor forma, terminando essa edição do disco com aquela sensação de quero mais.

Dreams

Daquelas faixas que não compreendemos porque não está na versão standard do álbum, “Dreams” fala sobre como o amado de Dua está amando a cantora da forma correta e, mesmo com todo seu teor sexual, soa divertida e cheia de personalidade. “New Rules” está orgulhosa.

“Room For 2”

“Room For 2” é uma das faixas mais diferentes de todo o álbum. Da melodia aos vocais, a canção afasta a cantora da sua zona de conforto, numa pegada bastante alternativa, e ainda que seja um acerto, tem nesse diferencial uma boa justificativa para estar apenas em sua versão deluxe. O espaço na tracklist, ela merece.

“New Love”

Outra experimentação que funciona bem é “New Love”, faixa essa que, ainda que esteja no final do disco, foi uma das primeiras músicas apresentadas pela cantora ao mundo, lá em 2015. A música chega repleta de sintetizadores, com uma percussão bastante tímida e atmosfera introspectiva, soando singular o bastante pra não a imaginarmos com uma artista que não fosse a própria.

“Bad Together”

A mesma singularidade da faixa anterior não se repete em “Bad Together”, que nos convence, mas poderia estar no repertório de qualquer outra artista. Uma canção tímida, mas que se garante no refrão explosivo, dos synths aos vocais da britânica.

“Last Dance”

Pra terminar de verdade o álbum, nada melhor do que uma faixa que te convida para uma última dança. A voz profunda e limpa da cantora contrasta com batidas eletrônicas, algo que poderíamos claramente ver o Years & Years fazendo em seus momentos mais íntimos. “Last Dance” pode ser uma conhecida nossa de longa data, mas nunca soa ultrapassada e sempre funciona aos nossos ouvidos.


***

Em momentos de crise da música pop, que implora por artistas que mantenham o gênero vivo nas rádios e paradas, é mais do que satisfatório ver uma potencial estrela da nova geração fazer uma viagem ao melhor do ritmo na atualidade, nos provando que tá tudo bem e ainda devemos ter esperança.

Em seu primeiro disco, Dua segura bem essa barra. O álbum vem carregado de confiança, recheado de boas referências e no que ela se propõe enquanto cantora, do poder a vulnerabilidade, da diversão a sensualidade, da honestidade a ironia. Talvez seja cedo demais para cobrarmos um disco icônico e completamente original, quando nem artistas mais velhas se permitem tal feito, mas o mais importante ela fez: se mostrou uma artista que merece o nosso voto de confiança quanto aos seus próximos passos. É isso que um disco de estreia deveria fazer.

Fonte: It Pop

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